Manifestações de Setembro de 2021: Uma análise parcial dos prospectos para 2022

A animosidade em torno da política no Brasil tomou conta das ruas em setembro de 2021: Um lado recheado de pautas e também em apoio ao Presidente da República (7) e outro bem objetivo em sua pauta única a favor do impeachment de Bolsonaro (12).

Sempre me atiçou curiosidade extrema o fenômeno que leva as pessoas às ruas para protestar em favor de suas causas, valores, princípios seja lá o que for.

Os meus olhos brilhavam aos 13 anos de idade ao ver aquele mar de gente em Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo naquele meio de 2013 quando tudo começou pelo aumento da passagem de ônibus e, de maneira orgânica, viu-se toda sorte de cartazes com diversas insatisfações a cerca do momento que vivíamos. Ali despertou no interior deste ser que vos fala uma espécie de senso de comunidade absurdo que percorre meu caminho até a data presente. Decerto era o prelúdio de uma onda que iria transpassar o país pelas próximas décadas: a polarização, ainda que vista e falada de maneira negativa, serviu para nos mostrar o verdadeiro papel e compromisso dos agentes públicos e privados num Estado de Direito, e adianto: muitos deixaram a máscara cair.

O ano de 2018 deixou evidente quem seriam os próximos players do cenário eleitoral, claro, aqueles que detém o poder e o carisma de convencer as massas de seus anseios políticos, certamente figurará o debate público com sua respectiva influência.

Nesse contexto, chegamos até 2021. Sem mais enrolações, diretamente ao cerne que levou as pessoas irem às ruas nesse setembro de 2021 tivemos, em primeira instância e como ponto em comum, no dia 7 de setembro, os apoiadores do Presidente Jair Bolsonaro nas ruas, ainda que alguns dissessem que não, este era o panorama daquele dia. Entre as pautas estavam o 1) respeito a constituição por parte do poder judiciário, 2) impeachment dos ministros Alexandre de Moraes e Luis R. Barroso do Supremo Tribunal Federal, 3) liberdade de expressão suprimida pelos inquéritos das fake news e de supostos atos antidemocráticos abertos inconstitucionalmente pelo STF.

A princípio, tive a sensação de um espirito conservador reformista ao ouvir alguns discursos sobre respeito a constituição e impeachment dos ministros citados, como de um delegado da Polícia Federal e do Procurador de Justiça Marcelo Rocha Monteiro, entretanto, surgia sempre a lembrança de que o ponto pacífico entre as pessoas que ali estavam era o apoio ao presidente e pouco ou nada se cobrava de um agente que denominou-se como conservador e ao ter a oportunidade de reformar aquilo que hoje é seu algoz, teve indicações controversas ao judiciário como o Procurador Geral da República, Augusto Aras, e os Ministros Nunes Marques e André Mendonça (este ainda não aprovado pelo senado) para o STF, respectivamente, todos com visões de mundo meio que as avessas do que o eleitorado de Jair Bolsonaro esperava, além disso, o passado um tanto quanto duvidoso de ligações a petistas de A. Aras e André Mendonça deixam qualquer um com a pulga atrás da orelha.

Entendo que o republicanismo nesse país pede acenos desse tipo para manter acordos e a ordem institucional sobretudo quando se tem uma suprema corte tão ativa politicamente (o que é um absurdo completo). Ao meu ver essa é a explicação da indicação de Nunes Marques a suprema corte: o objetivo era acalmar as tensões que haviam entre o executivo e o judiciário em época da indicação. Nesse mesmo contexto houve no dia seguinte as manifestações do dia 7 uma carta a nação do presidente acenando um arrependimento das palavras proferidas na Av. Paulista, afirmando que tudo foi “no calor do momento”. Ok, nas primeiras horas após ler o conteúdo absurdo da carta, foi um golpe daqueles aos apoiadores que não esperavam aquele recuo, mas depois que os ânimos se esfriaram foi mais fácil analisar.

Era mais uma das vezes que se punha em prática, eram daqueles momentos que em algum lugar, João Camilo de Oliveira Torres talvez abrira um sorriso de canto, pois, como bem lembra o filósofo, o apego do conservador a regimes mistos e acordos de compromissos institucionais cunha o caminho da certividade, deixando de lado a univocidade que não tem vez na política e na economia: . Acho que esse parágrafo é o mais autêntico da minha análise por claramente ser deveras interessante observar esses fenômenos na interpretação conservadora de mundo. A ciência política também possui suas belezas, viu? Talvez eu esteja idealizando algo (o que é muito ruim), algo em mim diz isso, mas nada que interfira no entendimento de que deve-se eliminar o sentimento da análise ou estará sujeito a decepções.

Este era o panorama dos atos no dia 7, apesar de ter uma pífia minoria de saudosistas reacionários que pediam a destituição completa do quadro de ministros do STF e a volta do regime militar. Tudo, enfim, ocorreu de maneira ordeira, pacífica e até festiva em alguns momentos. A Av. Atlântica no Rio de Janeiro foi palco de um misto de pessoas: do branco ao negro, criança ao idoso.

Papel da imprensa antes e depois dos atos de setembro de 2021

Vista com um papel imprescindível para o logradouro democrático, a extrema-imprensa teve mais um entre seus diversos episódios militantes na história recente. Demonizou os adeptos a manifestação do dia 7 de forma bizarra: pessoas comuns com pautas comuns supostamente estariam armadas dispostas a dar tiro? Teve. Manifestações de “alto risco” e golpista? Também teve.

🚨 ALERTA DE ALTO RISCO A DEMOCRACIA 🚨

Mas ao meu ver, o ponto alto de todo esse absurdo que a imprensa propagou foi durante os atos. Fui até Copacabana com objetivo de ver com meus próprios olhos os anseios de quem saiu de casa naquele feriado, deparei-me com todos aqueles citados acima, ao chegar em casa vejo a seguinte manchete na GloboNews:

Não fazia sentido algum com o que presenciei horas antes, parecia uma miragem, eu estava ali, dentro do protesto, não era possível que uma minoria de 3 reacionários fariam coro por todo aquele mar de gente. Era impossível não relembrar da celebre frase do comediante Groucho Marx:

Esta frase permeia absolutamente o que o jornalismo mainstream no Brasil se tornou: uma militância incutida de uma suposta imparcialidade, jogando aos lobos seus pares jornalistas independentes e monopolizando para si a virtude e sapiência que os “especialistas” lhes concedem parcialmente, simplesmente encaixando toda sorte de rótulos aos adeptos daquele 7 de setembro. Está aí a explicação de todo seu descrédito.

Se as pautas anti-democráticas fossem os monarquistas — que eram muitos — podia, talvez, fazer 1% de sentido na cabeça oca da , mas não era bem isso…

É essa democracia que eles querem, a “democracia de gabinete”, a democracia feita por eles, por quem é permitido no debate, como a direita limpinha que saiu às ruas dia 12 formando uma (risos) “frente ampla pela democracia”.

A “frente ampla pela democracia” (não leve a sério este termo aqui) surge como uma resolução iminente aos olhos do establishment a fim de engajar uma 3° via entre Bolsonaro e PT em 2022. Confiando no movimento que tem menos credibilidade que a imprensa tradicional, os adeptos do dia 12 tinham uma única pauta em comum: Fora Bolsonaro! Esqueceram, todavia, de avisar ao “povão”. Não bastasse isso, a desconexão é tamanha que até para falar de problemas que afetam intrínsecamente a população faltou efetividade na comunicação. Mas claro, foi proposital, pois para tirar Bolsonaro do poder, a pseudo-direita foi as ruas com o PCdoB, sim, o partido comunista… que fase, hein?

Fator chave para falta de adesão do público a manifestação do dia 12 com certeza foi a mistura de bandeiras políticas e figuras públicas questionáveis (sendo modesto, até) como o Partido Comunista do Brasil, PSOL, João Doria e Partido Novo. Não tinha proposta, era “fora bolsonaro” e ponto. Hoje, a população tem acesso a uma gama de informações e realiza seu próprio filtro, isto é, consomem diversos tipos de conteúdo informativo e de análises políticas e entenderam o proceder de um impeachment; sabem que para isso ocorrer o presidente da câmara, Arthur Lira, precisa dar andamento a um dos incríveis 127 pedidos (e contando) de impeachment contra Jair Bolsonaro, e hoje este player é aliado do presidente. A não ser que a 3° via tivesse alguma proposta, também, o povo não sairia as ruas com àqueles personagens. Em meio ao caos da pandemia as pessoas buscam alguma referência, alguém com ideias e propostas, unicidade entre PSDB, MBL, PCdoB e PSOL, convenhamos, chega a ser ultrajante. O erro de não apresentar nada diferente foi reconhecido pelo ex-governador petista Cristovam Buarque em seu livro, afinal, quem não lembra do manjado e até chato “Fora Temer”?

Bom, e o PT?

Lula e PT resolveram deixar seus 40% de intenções de votos em casa (respeitando, talvez, o isolamento social), já Bolsonaro – em meio ao seu suposto derretimento, segundo as pesquisas e a frente ampla pela democracia – levou seus míseros 27% de aprovação às ruas no dia 7 e deixou claro o seguinte cenário: teremos novamente uma disputa entre os dois fenômenos políticos mais populistas desde a queda do regime militar. Os dois se retroalimentam e chega a ser bobo a 3° via lamentar e se questionar o porquê do Partido dos Trabalhadores não ter aderido as manifestações do dia 12; quem organizou tudo foi teve parte direta na queda do PT, quem em sã consciência achou que eles fariam alguma aliança nesse sentido? A política é arte do possível, mas também é previsível ao passo que a enxergamos como ela realmente é: prospectos ao poder.

Aplaudo com louvor as tentativas de pessoas sérias em engajar uma nova liderança para os próximos anos, seja conservadora ou de esquerda, sabemos que é um trabalho difícil -passinhos de bebê- entretanto, as figuras que subiram no palco da Av. Paulista no dia 12 são de total aversão do público e mais do mesmo, sobretudo quando um presidencialismo de coalizão é tão forte nesse sistema político. O foco é a renovação do congresso para talvez mitigar os efeitos desse fenômeno, que será parte fundamental do meu próximo texto.

Vinícius Barcellos, acadêmico de Administração Pública da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Falaremos daquilo que te incomoda.

Vinícius Barcellos, acadêmico de Administração Pública da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Falaremos daquilo que te incomoda.